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Sabedoria no Cotidiano

A importância da meditação na vida diária

A importância da meditação na vida diária

Em todos os anos como professor do coração de centenas de alunos, Chagdud Rinpoche nunca deixou de enfatizar a importância da motivação pura para seguir genuinamente um caminho espiritual.

A motivação pura está assentada no desejo genuíno e imparcial de que todos os seres possam obter a iluminação, reconhecendo o potencial que carregam em si, ou seja, a sua própria natureza búdica. Assim, a prática budista carrega o anseio pela liberação do sofrimento e pela felicidade última de todos os seres, sem restrições.

Independente do nível de estudos e de práticas em que estivessem, Chagdud Rinpoche reiterou sempre aos estudantes a importância da bondade amorosa, da compaixão, da alegria empática e da equanimidade, que deveriam estar integradas, com honestidade e diligência, nas suas vidas diárias.

Uma hora de meditação formal não suplantará outras 23 horas de atitudes desatentas e desconectadas à visão dos ensinamentos. Desse modo, a prática formal deve fundir-se à experiência cotidiana e vice-versa, até que sejam inseparáveis.

É nas situações da vida diária que encontramos alguns dos grandes motores e exemplos sobre como hábitos, conduta e emoções podem ser a causa de felicidade ou de sofrimento, para nós mesmos e para os outros, especialmente porque ignoramos o potencial positivo ou negativo de nossas ações, e agimos desatentos, desprezando suas consequências futuras.

Construir uma nova perspectiva para atravessar a nossa atual experiência requer que os ensinamentos estejam vivamente integrados, como lentes que nos ajudam a perceber a realidade livres da confusão. Para se tornar sólida, tal perspectiva requer o desenvolvimento da atenção plena. Está aí, portanto, um dos primeiros passos nos métodos de meditação disponíveis no caminho budista.

Entrevista com Lama Sherab Drolma

Entrevista com Lama Sherab Drolma

Na entrevista a seguir, Lama Sherab Drolma, uma das professoras residentes no Khadro Ling, ordenada por Chagdud Rinpoche, oferece comentários breves sobre meditação, os primeiros passos e os benefícios da prática.


Como descrever a importância da meditação? 

A prática de meditação pode nos ajudar de diferentes maneiras. No caminho budista, a realização última que visamos é alcançar um estado de completa sabedoria. Nos ensinamentos budistas também se diz que a prática de meditação pode nos levar à realização em que nós revelamos nossa própria natureza, com todas as suas qualidades. Uma dessas qualidades é a sabedoria. Até que alcancemos esse propósito, devemos desenvolver a habilidade da atenção constante, que nos permite, por exemplo, conhecer a nós mesmos, conhecer as nossas falhas e qualidades. Conhecendo nossas falhas, podemos transformá-las. Isso pode nos tornar pessoas melhores, de bom coração. E a prática de meditação faz com que desenvolvamos a habilidade de criar internamente, em nossa mente, um estado de paz e de tranquilidade. 


O que a meditação da atenção plena nos proporciona?

A atenção nos leva a ter domínio sobre a nossa própria mente, de modo a não sermos carregados pelas nossas emoções. Muitas vezes, devido ao fato de não termos domínio sobre a nossa mente, por não termos atenção ao que ocorre na mente, somos dominados por emoções intensas. E quando agimos movidos por uma emoção aflitiva - como a raiva, a aversão, o orgulho e a inveja, por exemplo -, nós podemos magoar e causar danos a outras pessoas. A habilidade de dominar a própria mente, desenvolvida com a meditação, diminui a influência dessas emoções sobre nós. Se treinarmos com seriedade, passamos a ter a capacidade de reconhecê-las e a habilidade de lidar com elas. Isso reduz o risco de prejudicar outras pessoas. Viabilizamos, ainda, o espaço para que qualidades como compaixão e bondade amorosa possam se incrementar, possam crescer em nós. Nesse treinamento, vamos encontrar também outros benefícios. A nossa inteligência e nossa intuição tornam-se mais aguçadas, e fica mais fácil termos paciência.

 

E quais os benefícios da meditação para a saúde? 

A prática da meditação pode nos ajudar com a saúde física e mental. Algumas vezes, problemas físicos podem estar relacionados a emoções aflitivas que, frequentemente, são mais intensas em determinadas pessoas. Se a mente de uma pessoa é dominada por uma determinada emoção aflitiva, cuja negatividade ela não é capaz de reconhecer, isso pode se expressar em problemas físicos. Às vezes, pode fazer com que essa pessoa não encontre paz, não alcance controle sobre as próprias emoções. Isso impossibilita desenvolver um estado de paz interno, o que pode acabar se somatizando. Nas medicinas tibetana e chinesa, as emoções estão relacionadas com áreas do nosso corpo ou órgãos. E quando alguma dessas emoções, uma ou mais, são muito intensas, se não sabemos como lidar com elas, pode ser que isso se expresse em doenças. A meditação, que nos leva a desenvolver atenção e domínio sobre nossa mente, portanto, pode nos ajudar a manter um estado de saúde física e mental.

 

Meditação traz harmonia para o ambiente? 

Com certeza a meditação pode trazer harmonia para o ambiente. Se nós quisermos encontrar harmonia no ambiente que frequentamos, o início dessa harmonia está em conseguirmos criar harmonia dentro de nós. Precisamos ter a habilidade de levar nossa mente para um estado de paz e tranquilidade e, a partir daí, poder oferecer uma atitude de harmonia. Esperar que essa harmonia seja construída só pelos outros não é possível. Não temos controle sobre os outros. Então, se desenvolvermos a capacidade de levar a nossa mente para um estado de paz e de tranquilidade, certamente vamos contribuir para que os ambientes que frequentamos sejam ambientes mais harmoniosos. Em determinadas situações, tendo essa paz e tranquilidade interna, mesmo que o ambiente à nossa volta não seja tranquilo, essa desarmonia externa não vai nos influenciar tanto. Em primeiro lugar, é importante, via o treinamento na meditação, criar um ambiente de paz e de serenidade interno, um trabalho individual que requer perseverança e paciência. A partir daí, nós podemos contribuir para que os ambientes que frequentamos sejam também positivos.

 

A prática pode trazer uma transformação pessoal? 

A prática da meditação vai provocar uma transformação da nossa própria mente. Mas, para isso, é necessário utilizarmos métodos genuínos. No budismo, nós definimos um desses métodos como a meditação silenciosa - também conhecida como shamata -, método em que você busca descansar a mente. Você permite que toda atividade da mente, de pensamentos, de divagação no passado ou no futuro, cesse, que a mente relaxe. Para que possamos transformar nossa mente de uma maneira completa, no entanto, precisamos igualmente utilizar métodos de meditação contemplativa ou analítica. Por meio da meditação contemplativa você observa os seus conceitos, as suas ideias, as suas crenças, a sua compreensão dos fenômenos, analisa como você se relaciona com os fenômenos. Com a meditação contemplativa, à luz dos ensinamentos, nós podemos nos tornar conscientes das nossas falhas, diminuí-las, bem como incrementar qualidades positivas.

 

No processo de aprendizagem no budismo nós ouvimos os ensinamentos. Essa é a primeira sabedoria, a sabedoria da escuta. Depois vem a sabedoria da contemplação, ou seja, nós analisamos e investigamos o que ouvimos. A seguir, por meio desse processo de contemplação, aquilo que nós compreendemos via escuta e contemplação é interiorizado. Quando esses conhecimentos são interiorizados, há uma transformação na mente. O que transformamos são os hábitos. Via meditação contemplativa, nós conseguimos identificar, tomar consciência de hábitos negativos, hábitos que nos levam a praticar ações desvirtuosas, que nos levam a ter uma fala desarmoniosa, uma fala rude, por exemplo. Todo o processo da meditação, portanto, pode provocar uma completa transformação em nós, de maneira que nós possamos desenvolver e expressar sabedoria.

 

Como aumentar o bem-estar por meio da meditação? 

Uma pessoa que mantenha constância na prática de meditação vai naturalmente encontrar bem-estar. Mas não é um bem-estar que vem de fora, do ambiente. É um bem-estar que surge na própria mente de quem medita. É uma consequência natural dessa atenção interna, de estar presente consigo mesmo, quer dizer, a mente que observa a própria mente. E sabendo o que acontece na mente nós desenvolvemos domínio sobre a própria mente, não somos dominados pelas nossas emoções. E é esse domínio da própria mente, que vem da atenção constante, que vai permitir experimentar esse estado de bem-estar interno, um estado de tranquilidade.

 

Qual é a percepção de quem medita pela primeira vez? 

Quando uma pessoa decide meditar, o que vai ocorrer é que ela vai começar a se dar conta, vai começar a observar, que a mente está sempre ativa. É a primeira fase da meditação, constatarmos que quase sempre a nossa mente está vagando em coisas do passado ou do futuro. Se uma pessoa mantém constância na meditação, a tendência é a de que essa divagação, ou essa atividade da mente, das correntes de pensamento, comece a diminuir, a cessar. 

 

Como o corpo reage à meditação? 

Assim como você encontra um bem-estar mental via a prática da meditação, você pode encontrar também um bem estar físico, principalmente durante a sessão de meditação. Podemos encontrar um estado de conforto mental e de conforto físico também.

 

É preciso um lugar e horários específicos para meditar?

Não há um horário específico para meditar. Para cada um de nós, de acordo com nossas próprias características, há um horário que é melhor. Encontramos esse momento observando a organização da nossa vida diária. Para alguns, pode ser pela manhã, para outros à noite, para outros no meio da tarde; isso varia. O mais importante é escolher um horário em que seja possível para você meditar de acordo com a sua rotina. Você começa com sessões curtas. A constância diária é o segredo inicial. 

 

Existem dicas para uma boa meditação?

Não é necessário um lugar especial para meditação. Se uma pessoa quiser realmente progredir, ela precisa, em primeiro lugar, criar um compromisso consigo mesma, de meditar todos os dias por alguns minutos. Ela precisa de um ambiente onde ela possa se recolher e ficar sozinha, sem ser interrompida, que seja um ambiente que essa pessoa considere confortável. Isso é suficiente.

 

É possível oferecer instruções breves para começar?

A meditação é um processo que acontece quase que naturalmente. Então, as dicas para você praticar meditação e ser constante, para que você possa progredir, é o compromisso de meditar todos os dias, sentar para meditar seguindo as instruções da prática de meditação sem expectativas nem medo, sem expectativas de fazer uma boa meditação nem medo de não fazer uma boa meditação, porque a meditação não implica em você parar os pensamentos. A meditação é você manter a atenção. E porque você mantém a atenção, você não se distrai com a corrente de pensamentos, mas você vê o surgir dos pensamentos. E quando há essa presença, ou essa atenção de ver os pensamentos surgindo, eles se dissolvem por si mesmos. Por isso, expectativas de fazer uma boa meditação ou medo de não fazer uma boa meditação vão levar a um estado de tensão e não vai haver o relaxamento da mente que é necessário para se meditar. O mais importante é o compromisso e ter paciência porque o progresso na prática da meditação pode ser lento. Então é preciso ter paciência, constância e entusiasmo pela prática.


O Chagdud Gonpa Khadro Ling também oferece retiros introdutórios sobre budismo. Neles, é possível ter contato com as instruções completas para as práticas citadas aqui. Consulte a seção Eventos.