Dança dos Lamas
A Dança dos Lamas é uma forma de prática espiritual do budismo tibetano que mescla dança, música e trajes e máscaras rituais com o objetivo de conectar tanto quem dança quanto quem assiste à sua natureza mais profunda e verdadeira. Surgida há muitos séculos nos monastérios do Tibete, a Dança dos Lamas era apresentada tradicionalmente no contexto de elaboradas cerimônias conduzidas por Lamas e monges. Em algumas ocasiões específicas, a população que vivia no entorno dos monastérios podia assistir às danças para receber bênçãos e inspiração.
Quando veio para os Estados Unidos e para o Brasil, Chagdud Rinpoche treinou Lamas e praticantes leigos na Dança dos Lamas, estabelecendo essa tradição de forma cuidadosa e autêntica, incluindo a Dança dos Lamas regularmente em retiros, cerimônias e festividades locais. Embora a coreografia, figurino e música sejam executados estritamente de acordo com os ensinamentos e a linhagem que Rinpoche trouxe, é sempre enfatizada a importância de que a Dança dos Lamas seja baseada principalmente no que é chamado de “motivação pura”. Ou seja, não se dança apenas pela própria prática ou pela beleza da apresentação, mas para alcançar a iluminação e liberar os seres do sofrimento.
No Khadro Ling, a Dança dos Lamas é apresentada diversas vezes a cada ano tanto em retiros e cerimônias fechadas quanto em feiras locais abertas à população e turistas. Lamas e alunos antigos do Rinpoche vêm mantendo a tradição e ensinando novos alunos, inclusive crianças e adolescentes da comunidade de praticantes que se interessam por essa expressiva forma de meditação.
Confira abaixo o depoimento da Lama Yeshe Drolma, Lama residente do Chagdud Gonpa Dorje Ling, e uma das primeiras brasileiras a serem treinadas na Dança dos Lamas.
Depoimento de Lama Yeshe Drolma
“O Rinpoche dedicou um grande esforço para trazer da Ásia os trajes e artefatos necessários, além de produzir localmente as máscaras e outros materiais. Professores da Ásia e dos Estados Unidos também foram convidados para ensinar as diferentes danças aos alunos no Brasil.
Para realizar a primeira Dança do Chapéu Preto aqui, era preciso confeccionar os chapéus, que têm a estrutura interna de ferro. Rinpoche foi pessoalmente a Três Coroas com alguns alunos e explicou aos funileiros como fazê-los. O resultado foi bom, exceto por um detalhe esquecido: o forro interno, que protegeria a cabeça dos dançarinos. Mesmo assim, a dança aconteceu.
Rinpoche vestiu os trajes completos, assim como todos os dançarinos daquela primeira apresentação: Chagdud Khadro, Lama Tsering, Lama Norbu, Lama Sherab, eu e meu irmão Lídio — todos, com exceção de Lídio, viriam mais tarde a se tornar professores do Darma. Alguns iam para um lado enquanto outros iam para o outro; os pulos saíam em ritmos diferentes. No final, quando retirei o chapéu de Rinpoche, sabendo que sua cabeça devia estar doendo, disse: “Rinpoche, nós erramos os passos.” Ele me olhou e respondeu: “Eu estou muito feliz.”
A alegria dele era por instituir a Dança dos Lamas no Brasil e ter reunido todo o necessário para que isso fosse possível: os chapéus, as roupas e os implementos. Os erros nos passos eram secundários diante do que aquilo representava. Essa história é um ensinamento que vale lembrar sempre que dançarmos ou assistirmos às danças. Rinpoche certamente estaria muito feliz ao ver essa prática sendo mantida com diligência aqui no Khadro Ling e nos demais centros.
Para dançar bem, é preciso repetir os passos até que se tornem automáticos, como ensinava Chagdud Rinpoche. Quando a técnica está incorporada, a mente pode relaxar em meditação durante a dança e quem assiste percebe essa diferença. A Dança dos Lamas pode ser praticada por todos da comunidade do Khadro Ling — crianças, adolescentes e adultos, não apenas pelos professores. É um elemento importante de nossa prática.
Com o tempo, a dança foi oferecida também fora do contexto de prática. Esse tipo de apresentação aconteceu pela primeira vez na praça principal de Três Coroas, diante de uma plateia curiosa. Desde então, já foi levada a muitos outros lugares.
Rinpoche era generoso em compartilhar tudo o que sabia, esperando que seus alunos aprendessem e praticassem de tudo, sem se apegar a uma única atividade. Quando vemos qualquer atividade como uma bênção e como parte da prática, ela se torna exatamente isso — o mesmo se dá com a dança.”